sábado, 4 de dezembro de 2010

Ah.

Enquanto você adora os domingos em que tudo se resume ao ópio, estou aqui nessa sala cheia de janelas abertas, mas com as portas trancadas. Parece-me uma prisão, o ar fica estático e é dolorosa cada tragada. Não há vento embora as árvores balancem afoitas lá fora; consigo ouvir o canto dos pássaros e até mesmo o som das folhas caindo no lago raso, formando circunferências - parecem-me teus olhos.
Aqueles olhos simpáticos que não tive, mas me prendiam cheios de intenção mesmo estando tão distantes. Distantes em todos os sentidos da palavra. Aqueles olhos que sabiam exatamente o que sentiam os meus.
Mas já não bastasse tal distância, há todas aquelas tolas coisas em comum; mas fisicamente o que pertence a mim e a ti é justamente esse ar áspero que te toca até o último de seus cachos, e a mim me reprime; esse ar que te preenche e faz bombear esse monte de carne podre que chamamos de coração. Que deveria ser um só, mas são dois, e dois amargurados.
E existem as canções os filmes os livros as histórias os gostos os desenhos as vontades os planos e a incerteza exasperada e progressiva da qual o findar depende de ti só de ti porque sabias do fundo da tua alma sedenta que eu sou tua embora eu ache dizer isso precipitado visto que tu ia retardando retardando retardando o acaso todo planejado dentro de mim do fundo do abismo daqueles mesmos meus - nossos - olhos.

Mas ah, caberá o que há de vir, e tanta espera, experiência e inexatidão me causam o mesmo efeito que a ti, enquanto você adora os domingos em que tudo se resume ao ópio e estou aqui nessa sala cheia de janelas abertas e portas trancadas.

domingo, 7 de novembro de 2010

Com a boca amargando.

As minhas borboletas do estômago voaram embora, saindo pela minha garganta, ajudando minhas verdades a irem direto aos teus ouvidos. E você sentiu cócegas e sorriu, quando deveria se sentir honrado por ser o alvo do meu primeiro e único acesso de coragem – mesmo que isso tornasse as minhas mãos, antes sempre gélidas, como um relógio de Salvador Dali.

E esse seu sorriso congelou meu peito e não pude respirar.  O que era quente em mim foi apenas o suficiente para ferver o sangue das minhas borboletas que alçaram vôo sem medo, e além de minhas mãos agora EU sou um relógio – frio, calculista, sem medo de dizer o que quer pois não há nada a perder.

Minha racionalidade assusta.
Minha inocência se foi.
Suas sutilezas falsas não me bastam,
Não preenchem,
Não repelem,
Não atraem.

Você me conta vagamente sobre o seu dia,
Me fala de outras pessoas,
- que sobre tantas outras descobri sozinha, -
Os dias se sucedem e as velhas novidades se repetem.

"Fica o vazio, após o tchau. Fica o fantasma, quando o concreto se vai. Ficam as marcas de poeira ao redor dos quadros e os longos fios substituindo o ar. Ficamos eu e você, aqui e aí. Um vazio momentâneo, uma saudade permanente, uma dor que vai e vem, alternada com uma apaixonada e obcecada psicose, que só entende quem sente."